segurança

Um trovão e a chuva desabou bem no instante em que me empurrei para dentro da agência bancária. Era um daqueles dias de verão em que os temporais são tão inesperados quanto uma visita da sogra. Você sabe que vai acontecer, mas nunca está preparado de fato. Exceto este dia talvez, pois eu havia trazido o meu fiel guarda-chuva. Assim que vi a porta giratória, porém, percebi que aquilo ia dar merda.

BIIIP! O alarme soou e uma voz feminina e amigável sugeriu que eu retornasse e depositasse meus objetos de metal na gaveta acrílica. Eu sempre achei aquilo uma puta invasão de privacidade, mas tudo bem. Se esse é o método de segurança padrão eu acho melhor me adaptar. Descarreguei chaves, celular e moedas na tal gaveta e retornei à porta.

BIIIP! Ela berrou novamente seguida pela voz amigável da moça. Na segunda vez é que os seguranças vêm falar com você. Um sujeito alto e carrancudo se dirigiu a mim pelo outro lado.

- O senhor poderia deixar o seu guarda-chuva do lado de fora por gentileza e tentar novamente?"

Ora, justo o meu guarda-chuva? Aquele que eu sempre esqueço de carregar quando vai chover ou que eu nunca sei onde deixei quando já está chovendo? Logo hoje que eu me lembrei de trazê-lo e que sei exatamente onde está?

- Mas amigo – eu tentei argumentar –, é só um guarda-chuva.

- É para a sua própria segurança senhor. – respondeu o homenzarrão de forma robótica.

Minha própria segurança? Seria seguro voltar para casa seco. Ou com guarda-chuva ao menos, já que nada me garante que ele continuará ali apoiado na parede quando eu voltar. Mas mesmo assim eu assenti. É melhor não criar problemas, pensei e tentei novamente entrar.

BIIIP! Mesmo sem sinal de mudança na entonação, de repente a voz da moça não parecia mais tão amigável e eu comecei a atrair mais olhares do que briga de bêbado no pátio da feira dos pássaros.

- O senhor deveria também retirar os anéis, pulseiras, relógios e colares senhor. – O grandalhão parecia estar perdendo a paciência. O que chega a ser engraçado pois o trabalho dele é só dizer aos outros o que fazer enquanto eu, que tenho que obedecer não posso me zangar.

- Mas amigo, a aliança e a corrente são de ouro, um metal não magnético, nem que eu quisesse eles fariam apitar essa máquina que… – tentei argumentar, de novo em vão.

- É para a sua própria segurança senhor.

Minha segurança? Tá bom então. Olhei de relance no relógio dentro da gaveta enquanto tirava minha aliança e corrente. Cinco para as quatro. O expediente bancário fechava em cinco minutos e eu ali, naquela dança de entra e sai da porta giratória. Tentei entrar de novo, mas é claro que, com a minha sorte, eu iria ser barrado de novo.

BIIIP! Eu sabia. Fui aconselhado a, dentro da porta e sem poder entrar ou sair de fato, levantar minha camisa, virar os bolsos para fora, retirar os sapatos e o paletó. Tudo isso, segundo o homenzarrão:

- Para a sua própria segurança senhor.

Eu sempre achei que trabalhar em escritório me livraria dessas situações em bancos. Que, finalmente andando por aí de terno e gravata eu imporia o respeito que normalmente esse tipo de roupa causa nas pessoas. Vai ver me enganei e a minha cara de marginal é indisfarçável. É isso ou o segurança andou assistindo demais aos filmes do Tarantino.

Eis que para a minha surpresa total, entre um devaneio e uma exposição desnecessária eu ouço um barulho diferente do, àquela altura, já familiar “BIIIP!”. Tratava-se de um assalto do lado de dentro da agência. Mas que bela merda de ironia, pensei. Eu aqui querendo pagar uma conta sou barrado trocentas vezes enquanto os assaltantes de fato já estavam lá dentro. Vai ver eu servi até de distração, já que nos ultimos cinco minutos eu me tornara a atração principal daquela agência.

Mais do que depressa, saí da minha pequena roleta e me prostei a recolher minhas coisas quando ouvi o barulho de um tiro. Assustado olhei em direção à porta. Lá estava, travado entre a entrada e a saída o segurança que me fez passar por tudo aquilo. A porta parecia ter sido atingida por um projétil enquanto ele tentava fugir. Por sorte o vidro era blindado e o homem não foi ferido, mas parecia preso entre as portas sem poder avançar ou recuar e logo descobrimos o porquê.

- BIIIP! Devido ao comprometimento na estrutura da porta giratória, a mesma permanecerá travada para entrada ou saída. Favor contacte o responsável mais próximo. Esse procedimento é automatizado e foi adotado – e foi então que eu ri – para a sua própria segurança!

Me virei e dei o fora de lá o mais rápido que pude. A pior parte? Meu guarda-chuva havia sumido e ainda chovia lá fora. Droga, eu sabia que isso ia acontecer.

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figuração

Eu era água, ela era fogo,
no início, não que pese,
não vislumbrava-a comigo.
Éramos perfeita antítese

O Rouxinol me contou:
conhecia minha paixão.
Até o pássaro corou,
tal personificação.

Ela vem resplandescente,
ela vem como a aurora,
ela vem e engana a mente.
Ela vem fazendo anáfora.

Olhos eram como estrelas,
lábios como ilusão.
Mas não fazem jus palavras
somente em comparação.

Seu sorriso é diamante,
com uma voz que acalora
feição de qualquer amante.
Toda ela é uma metáfora.

Ali, no meio do nada,
medo em excitação,
amiga em namorada,
tudo era gradação.

Ela ali, abrasadora,
ardorosa em abundância.
Ainda alada, altiva.
Voa, ao soar da assonância.

E esta, de tão trabalhada,
trova tornou-se canção.
Para que ela, triste e lenta,
note a aliteração.

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as folhas de prata (prólogo)

Do cume da montanha, Fënfallas podia avistar a cidadela proibida. Aos olhos mortais ela nunca teria sido notada, apenas uma grande clareira entre as copas frondosas e verdejantes na floresta dos druidas, mas a magia que reside no coração dos elfos permitia que seus olhos e ouvidos aguçados percebessem não só aquilo que passava despercebido a todas as outras raças, mas também aquilo que havia lhes sido ocultado por mágica.

O alto elfo desmontou sua égua parda e a amarrou em um tronco seco. A paisagem aqui, longe do domínio sagrado dos druidas, era bem diferente. Não havia verde, apenas um chão seco e poeirento e o que um dia haviam sido grandiosas árvores frutíferas agora não passavam de troncos cinzentos e retorcidos. A terra batida e rachada parecia abraçar as ruínas do que aparentava um dia ter sido uma cidade e os cinzentos blocos de alvenaria quebrados contrastavam com os branquíssimos crânios de boi que ali jaziam.

O alto elfo sentou-se em uma pedra enquanto bebia o que restou da água de seu cantil de um gole só. Havia feito uma longa viagem desde sua cidade natal, mas nem a mais longa das jornadas seria o suficiente para preparar o aventureiro para o que estava por vir. Jogou seus longos cabelos negros presos em forma de trança para trás e começou a vasculhar com os olhos as ruínas da cidade em que se encontrava. Vez ou outra encontrava algo valioso em ruínas como aquela. Valioso aliás era um conceito difícil de definir nestas terras, qualquer coisa que pudesse ser útil era trocada por certas provisões em algum povoado.

Lembrou então de tempos distantes, da glória dos aventureiros, das invasões à grandes masmorras e das riquezas em ouro e prata que elas continham. O mundo havia mudado desde então, agora uma espada de aço bem afiada valia mais do que três vezes o seu peso em ouro, um cavalo saudável e jovem saia mais caro do que doze escravas virgens e até um pão de um quarto de quilo valia mais do que os outrora metais preciosos em mesma quantia. Mas mesmo sendo realista, Fënfallas ainda colecionava pequenos objetos que encontrava. Talvez fosse um sopro de sua tradição élfica, sempre admirando pequenas formas de arte, ou talvez fosse apenas tolice de alguém quem ainda se prende às glórias do passado. De qualquer forma, abaixou-se e apanhou uma pequena jóia do chão poeirento.

Eram dois pingentes em forma de folha de bordo e estavam negros e gastos, mas o elfo percebeu que se tratava de prata. Pelo tamanho das jóias elas já valeriam pouco nos tempos áureos, pela baixa quantidade de metal nobre utilizada. Nos dias de hoje, valiam menos que um gole de água fresca. Rejeitando novamente a norma padrão, Fënfallas as guardou num dos bolsos do cinto e levantou-se para partir.

Naquela tarde, enquanto o sol poente banhava de vermelho o cume da montanha, deu-se início a lenda que estou prestes a lhes contar.

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libertas que sera tamen

Uma vez Dagoberto sentiu saudades e achou que fosse uma coisa ruim. Ruim, percebeu ele, não era lembrar o passado, era sentir falta dele, desejar estar vivendo aquilo novamente ao invés do que está vivendo no momento.
Cada segundo que perdeu lembrando o passado foram segundos que perdeu de viver o presente. E ele nunca foi muito bom com essa coisa toda de viver.
Viver é por demais complicado, tem seus desafios e obstáculos.

Mas Dagoberto é um Guerreiro, sempre superou suas dificuldades com muita luta e suor. Quase como se fosse possível resolver todos os seus problemas apenas com garra e determinação. Mais velho percebeu que não. Ele desejou então ter sido um Mago, ao invés de um Guerreiro. Pois um Mago poderia com algum feitiço voltar ao passado e ordenar a si mesmo que não fosse Mago ou Guerreiro, que fosse apenas Dagoberto, como tantos um dia quiseram ser.

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ser e não ser

Naquela manhã de terça-feira esperava aprender um pouco sobre física mas insistiu em desviar os olhos do professor Estanislau para a carteira ao lado. O professor Estanislau é tudo que se pode esperar de um professor de física com este nome ao contrário da garota entediada ao lado, o que explica seu ímpeto em observá-la. O nome dela é Cecília e tudo o que se pode afirmar sobre ela é: Cecília é uma moça bonita.

Atravessando a movimentada rua a passos ligeiros na saída da escola Cecília de repente perde a identidade. A identidade como todos sabem é uma coisa muito desagradável de se perder, não é como uma nota de 50 cruzados que pode ser devolvida pela pessoa que caminhava logo atrás de você e a viu cair de seu bolso antes mesmo de se questionar porque uma colegial carregaria uma nota de 50 cruzados no bolso da saia.

A idéia de personalidade nunca afligiu Cecília até aquele momento. Foi como cair de um lugar muito alto direto em uma piscina escura de águas frias quando percebeu que poderia não ser quem pensa que é.

A noção de realidade atormentou a jovem. Toda a sua noção de mundo até hoje foram registradas por seus sentidos o que significa que eles são sua única conexão com o mundo, logo as outras pessoas também devem se relacionar com o mundo da mesma forma o que torna toda a sua existência resumida a impressões que ela deixa na percepção de outras pessoas.

Nada do que Cecília pensou, sentiu ou fez nunca de fato aconteceu se não tiver sido relatado ou presenciado. De repente sentiu arrependimento de todas as vezes que ficou sozinha trancada em seu quarto com seus pensamentos, algo que até então ela sempre gostara de fazer. Percebeu que ao se isolar, deixava de existir aos poucos.

E é neste exato momento em que sente seu corpo explodir, a dor e a sensação de vazio completam o trauma do choque: Cecília não era o resultado de seus pensamentos, nunca foi. Ela era o resultado de seus atos. Percebeu que não é quem você é que te define, é o que você faz. E assim, tão rápido como uma idéia, se despediu do mundo. Ele jamais seria o mesmo pra ela.

E é neste exato momento em que sente seu corpo explodir, a dor e a sensação de vazio completam o trauma do choque: Cecília havia sido atropelada. A idéia de parar subitamente no meio da rua pode não ter sido uma boa idéia afinal de contas. Ah suas idéias, sempre a pregando peças, pensou. E assim, tão rápido como uma idéia, se despediu do mundo. Ele jamais seria o mesmo sem ela.

Cecília, a moça bonita boa em biologia, campeã de vôlei e três vezes consecutivas eleita a mais bem vestida pelo jornal do colégio deixará pais saudosos e amigos que se espelharão em suas conquistas.

Cecília, a moça gorda com distúrbios alimentares, atormentada pelo fantasma do seu avô que a violentou aos dez e invisível aos olhos do amado, esta nunca existiu.

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a arte de amar

Creio eu que o amor é a arte de almejar o inatingível e incompreensível ser de outrem.

Pois o ser que se pode atingir, alcançar, é concreto. Tem textura, forma e cor. E algo tão bem definido acaba com a imaginação de qualquer coração apaixonado.

Um ser compreensível se torna previsível, pra não dizer invisível. Os sentidos aprendem a tratar com indiferença o que lhes é por demais familiar.

O que é belo no amor é a naturalidade, o prazer, a idealização, a intangibilidade… Ah! A paixão.

Eis que a paixão se torna o grande vilão. Sim.

Paixão, esta prima tão próxima que impede o Amor de florecer em sua plenitude.
Que mata, ou cria raízes. Que destrói ou edifica. Que vai, ou fica.

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amoro-te

Inventei uma nova palavra:
Amoro-te!

Pensei em dizer que te amo.
Pensei em dizer que te adoro.

Mas não te amo somente
porque te amo com adoração.

Amoro-te.

Pois adorar é amar com d… de dor.
E isso é que não!

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